Terminemos o dia bem

terminemos o dia bem

Não, desta vez eu não vou cair na armadilha. Já sabemos onde isso vai parar. Primeiro você fala alto e se irrita, depois eu entro em parafuso, começamos a nos desgastar psicologicamente com coisas que não fazem o menor sentido e, até a sua cor favorita ser diferente da minha, vira motivo de discussão.

Vamos esquecer por um momento essas duas pessoas chatas que nos tornamos? Vamos dançar uma música qualquer na sala, vamos pedir uma pizza, eu deixo você escolher o sabor, mas você me deixa escolher a bebida. Depois a gente escolhe um filme na TV como trilha sonora das nossas conversas debochadas e totalmente sem sentido sobre as notícias sérias da internet. Quero dizer, vamos ser leves como éramos – o tempo todo – antigamente?

Se amar é querer bem, então nos machucar faz perder todo o sentido. Ter problemas no relacionamento é normal, a diferença está em como lidamos com eles, e só fazemos a diferença se contornamos da melhor forma possível a situação, mesmo que isso signifique dar o braço a torcer. Não daremos certo o tempo todo e sempre teremos coisas para consertar, mas a verdade é que nunca daríamos certo tanto tempo com outras pessoas. Eu sou chato, mas você é tão chata quanto eu.

E nessas chatices de ser quem somos, é que percebo o quanto é bom ser chato com você. Por isso vamos levar o nosso mau humor para um lugar que não atrapalhe a relação, amanhã você implica com a sua colega de trabalho e eu discuto a relação com o motorista de ônibus.

É que a vida é muito curta para dormir brigado com quem a gente ama. Que o orgulho não nos leve mais tempo do que os problemas e os compromissos já levam. Que a teimosia não vire inimiga dos nossos sentimentos, porque um relacionamento nunca se tratou de ganhar uma guerra, mas sim de lutar juntos pelo bem de dois querer.

Eu sei, é ilusão minha tentar manter assim para sempre, haverá dias em que eu entrarei em parafuso novamente e tudo será normal. Brigaremos insensatamente e diremos coisas que teremos que pedir desculpas por uma semana, mas hoje eu prefiro ser esta escolha certa de colocar um sorriso no rosto no meio da sua sobrancelha enrugada de raiva, e te encher de beijos até você parar de argumentar.

Melhor acabar o dia assim, vem cá! A gente deita juntos, se abraça, fala umas bobagens e depois se ama. Terminar o dia bem é não perder a noite e ganhar o outro dia também. E assim levamos a vida tentando driblar os problemas como quem dança uma dança, e trocamos a melancolia dos tangos de domingo pela alegria do samba da segunda-feira.

E assim não é melhor? Para que fazer guerra, se a gente pode fazer amor?

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A dificuldade de se apaixonar novamente

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Depois de um tempo fica difícil abrir o coração novamente, assim, de maneira espontânea. As derrotas no jogo do amor ensinam a racionalizar alguns sentimentos e, por este motivo, gostar de alguém não é tão simples como deveria ser. Criamos barreiras, exigências, inventamos mil motivos, mais para o não do que para o sim.

Meio que por sobrevivência, se não sabemos, acabamos descobrindo atalhos para sermos felizes sozinhos o tempo todo. Aprendemos as coisas que nos aliviam, que nos deixam felizes, que nos acalmam, que nos distraem e que nos fortalecem. Construímos um mundo particular confortável e uma cela quase intransponível para o coração.

De vez em quando aparece alguém batendo na porta, educadamente, querendo entrar, e por mais que a pessoa mereça uma chance, às vezes entregar-se é custoso. Parece cansativo sair do conforto de não sentir vazios no coração ou nós na garganta – porque gostar de alguém às vezes causas estes efeitos colaterais – mesmo que isso custe não morrer de amores nos finais de semana e levar uma vida sem grandes intimidades. Pagamos o preço do não amar, às vezes com gosto.

Criamos um medo enorme, mas ele não é de amar, nunca foi. O medo é de dar errado, de se machucar, de se entregar a toa, de quebrar a cara e sofrer novamente. Com o tempo ficamos fortes para a vida, mas frouxos para o amor. É como ter medo de alturas, porque não se tem medo da distância entre o chão, mas sim da possível queda.

E nesse medo que acumulamos, passam algumas pessoas que poderiam ter valido a pena insistir, mas até nisso, a motivação acaba. Lutar por alguém, doar-se um pouco mais para que algo dê certo, custa um esforço danado. Insistir em alguém parece exaustivo. Com o tempo ficamos práticos, se der certo ótimo, senão adeus. Enquanto encaixa o jogo continua, se uma peça se perde, é melhor substituir. O problema é que ficamos práticos demais.

E meio contraditório, às vezes o medo é de dar certo. E se com esta pessoa funcionar? E se eu for feliz de uma maneira que nunca imaginei que seria? Quem me garante que desta vez a pessoa não irá embora? Quem me promete que as atitudes dela me renovarão a cada dia?

Mas a vida é este risco incalculável de incertezas, talvez a saída seja entregar-se totalmente mesmo, sem limitações. Se quebrar a cara, quebrou, a gente compra uma máscara enquanto conserta a cara. Se machucar o coração a gente foca no trabalho, enquanto chora nos intervalos do almoço, enquanto as lagrimas vão levando as decepções e a nossa coragem embora, mas a coragem a gente recupera, traz de volta, e as decepções a gente transforma em aprendizado.

Depois de um tempo é preciso muita coragem para sair dessa mediocridade de relações superficiais.Talvez valha a pena encarar o medo, mesmo que a gente precise um tempo de solidão e de calma no coração. É preciso criar um alarme para não perder o horário de voltar a abrir o coração, de querer com ânsia os mais puros sentimentos.

Mesmo que não seja o momento, uma hora você precisa criar coragem para volta a subir no andar mais alto do prédio, mesmo com medo, porque um dia a alma fica inquieta e pede. E que este tempo seja para criar impulso e depois pular com tudo, porque estar vivo só vale a pena quando podemos – com toda a sua plenitude – sentir.

Não invista

nao invista

“Tempo é dinheiro”, escuto esta frase há anos, desde criança. Venho de uma família que trabalhou demais, trabalhou para alcançar os objetivos que, na verdade, eram apenas um: dar conforto para a sua família. Esta frase define a minha criação.

Tempo é escasso. Tempo é vento, às vezes lento, mas geralmente fugaz. Cada segundo que vivemos já passou e lá se vai meia hora, uma hora, o dia, a semana, o mês, o ano e a vida. Olha aí, quase trinta anos e o que fez? Não, não estou falando de bens materiais. O que você fez? Viveu? Amou? Cresceu como pessoa? Se não respondeu afirmativamente estas três palavras… Bom, veja só, muito tempo passou em vão.

O tempo é inimigo na maioria das vezes, é uma ampulheta da vida, já em outras vezes, só o tempo cura, ensina, só ele dá os caminhos certos para as nossas inquietações. Precisamos de tempo para refletir sobre nós mesmos, sobre os acontecimentos da vida, sobre o que fizemos e sobre quem queremos ser no dia de amanhã.

Como tempo era dinheiro e a minha carteira sempre estava vazia, aprendi algo: não invista. Não invista seu tempo com quem não liga para você. Não invista seu tempo em coisas que não lhe darão retorno algum a longo prazo.

Não perca mais de dez minutos com alguém que não tem nada de bom para lhe oferecer. Não perca uma noite inteira de sono por alguém que nem se quer está pensando em você, nem desperdice o seu tempo criando ideias sobre como chamar a atenção de alguém que não quer te enxergar. Não invista em relacionamentos falidos ou em pessoas que não tem valor algum no mercado.

Não invista seu tempo com pensamentos negativos. Não fique alimentando a sua alma de ódio e rancor ou até mesmo de culpa. Isso nunca levará a nada. O que passou, já foi, o importante é o que fica, mesmo que isso seja apenas o aprendizado. Invista na moral da história e não nas histórias em si. Invista em quem te quer bem sem juros.

Invista em você, sempre. E quando eu falo isso, não estou incentivando o seu lado egoísta. Digo para que finalmente você aprenda a criar a sua carteira de investimento. Nela precisa caber você, as pessoas que gostam de você, as coisas que deixam você feliz, as músicas que te motivam, os sonhos que você quer realizar e as conquistas que você gosta de pendurar na parede do seu quarto. E seu bichinho de estimação claro, porque você o ama.

Invista na vida, no amor e em si mesma. Invista nos momentos que te deixam feliz, nas pessoas que conseguem aliviar as dores do seu dia, que são dopamina. Invista no que você gosta de fazer, mesmo que seja incompreendida pelas outras pessoas, mesmo que a julguem, mesmo que não seja boa o bastante naquilo.

E no fim da vida, mesmo que o seu bolso continue vazio, ficará com a certeza de que você sempre fez o melhor investimento. Minha família me deu uma das melhores lições da vida, com um pequeno erro de comparação: tempo é mais do que dinheiro, tempo é tudo o que ainda temos.

O gosto da traição

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Qual era o gosto da outra pessoa? Aproveitou bastante pelo menos? Te fez sorrir, gozar, acalmou o seu coração? Olha para mim enquanto falo, que esse tipo de conversa a gente encara assim, olho no olho. Neste seu mar de ingratidão e hipocrisia, peço para que resgate o mínimo de caráter – se é que você sabe o que isso significa – e fale, pela última vez, com sinceridade.

Tenho curiosidades, me diz, como se sente em jogar um amor fora? Como se, para você, sentimentos, palavras e promessas não tivessem valor. Qual é o gosto de ver uma história criada com tanto esforço e empenho sendo enterrada no mais fundo dos buracos? Como se sente em destruir o coração de alguém que, com tanto esmero, dedicou o seu tempo para te fazer sorrir?

Já teve aquela sensação de ver o mundo desabar diante dos seus olhos e simplesmente aceitar, ainda desacreditado que tudo isso está acontecendo? E com todo o masoquismo do mundo, aquela lembrança me acompanha, uma e outra vez, para me machucar, para me lembrar que confiança é feita papel, uma vez amassada, nunca mais volta ser a mesma.

É desesperador pensar que, daqui não tem mais volta, porque nada do que você faça a partir de agora resolve, nada conserta, nada alivia. E por mais que você tente voltar, você não volta. Não é mais merecedor de conhecer as minhas verdades, não é mais digno de ser protagonista da minha história de amor.

E como perdoar alguém que me obriga a desistir de amar? Se agora você me força, subitamente, a ir embora e deixar aqui todo o meu amor, que de tão grande, não cabe na minha mala. Como perdoar alguém que é responsável pelo meu sorriso incompleto? Que não sorri mais com o coração, porque ele entende que não há motivos para comemorar.

E por mais que eu tentasse a confiança não voltaria, porque a mentira é uma cicatriz que não desaparece e a traição é uma ferida que nunca cura. Porque a insegurança se torna amiga intima dos meus pensamentos e assim, cada palavra sua, sempre teria o peso de uma meia verdade.

O que me conforta é saber que eu fui verdade, porque aprendi que não há nada mais libertador do que ser fiel com os sentimentos, porque nada é mais prazeroso do que a certeza de que, em todos os momentos, sempre dei a minha melhor intenção. O que me alivia é saber que, mesmo com o céu nublado, um dia o sol voltará a brilhar. E que, quem perde nunca é quem tem o amor, mas quem deixa de recebê-lo.

Hoje, decepção, ingratidão, mágoa e desprezo, se tornam vento norte que vão levando embora as nossas melhores lembranças. E do jeito que eu posso, me achando ou me perdendo, vou me afastando de quem brincou da maneira mais vil possível com o meu coração.

Chegou a hora de dividir os pertences, fique com tudo, eu não preciso de nada. Comigo eu levo o aprendizado, a consciência tranquila e o meu coração sincero. Fique inclusive com o gosto agonizante do arrependimento, que eu fico – sem culpa e sem medo – com o gosto amargo da traição.