Talvez você nunca amou ninguém

nunca amamos

“Eu amei, mas machuquei a pessoa. Eu amei, mas trai. Eu amei, mas menti. Eu amei.” É o que se gabam em dizer, que amaram. “Eu perdi um amor”, você diz. Pois talvez você nunca amou de verdade, eu digo.

Nos vendem uma ideia de amor tão desprezível, tão mínima, que as vezes acabamos comprando e pagando caro por esse conceito diminuto. E lá estamos sofrendo por alguém que nos maltrata, que não nos trata bem, que não nos presta atenção, que não nos acompanha. Dizemos que amamos alguém que simplesmente não nos ama.

E seguimos, porque acreditamos que seguir é amor, porque a pessoa nos deu um pouco de atenção e isso é amor. Porque nos chama para sair uma vez por semana, porque nos dá um abraço apertado quando nos decepciona, porque nos diz que somos a parte mais importante do seu universo. Seguimos porque somos carentes afetivos e as migalhas que nos dão parecem ser o suficiente. O pouco nos basta.

Nos apaixonamos por quem corresponde ao nosso sorriso, por quem fala as palavras certas na hora certa, por quem responde as nossas mensagens em dois segundos e com emoji de coração. Nos apaixonamos por muito pouco.

Mas que tipo de amor é esse que mente e manipula? Que não respeita e não está nem aí? Que tipo de amor é esse que é egoísta e não lhe deixa seguir os seus sonhos? Que tipo de amor é esse que prende e que lhe diz o que deve ou não deve fazer? Que nos vê como propriedade privada, como se não fossemos nem de nós mesmos.

Que tipo de amor é esse que um dia enjoa e acaba? E depois que acaba vira ódio? Que tipo de amor é esse que tem prazo de validade? Como se a vida já não fosse breve o suficiente para dizer: “preciso de um tempo” ou “precisamos conhecer novas pessoas”.

Talvez nunca nos amaram de verdade. Talvez, nós também nunca amamos ninguém e só queremos acreditar que atingimos o amor. Queremos olhar para os lados e poder dizer “um dia eu amei”, “um dia alguém me amou”, “eu estou amando”, “alguém me ama”, mas talvez seja essa a nossa grande mentira que contamos para o mundo.

Eu não sei o que é o amor, mas eu não acho que amor tenha a ver com sofrimento, nem que seja algo que nos leva para o fundo do poço. Eu acho que amor é como um delicioso chocolate quente no frio penoso do inverno. Eu acredito que o amor é algo que poucas pessoas alcançam, como ver o pôr-do-sol no Everest, algo assim.

É por isso que tantas vezes ouvimos que precisamos nos amar antes de amar outra pessoa, para que possamos ter alguma ideia sobre como devem nos tratar quando somos amados. Para encontrar alguém que se ame também e que saiba pelo menos onde está nos levando. Alguém que também nos ensine sobre o amor, porque a verdade é que sabemos muito pouco sobre isso. E se não sabemos nos amar, um pingo sempre terá gosto de dilúvio.

Talvez eu esteja errado, e o amor seja essas dubiedades todas que ouvimos no dia a dia. Talvez o amor seja mais tristezas que alegrias, mais decepções que orgulhos e mais egoísmos que renúncias.

Ou talvez o amor seja mais do que imaginamos.

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O presente do dia dos namorados

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Já comprei o presente, mas não é isso que importa. Embalei com papel azul celeste, porque é a cor favorita dela e coloquei um laço, porque ela tem essa sutileza estética de amar os detalhes.  Colocar o laço não é importante, saber que ela gosta disso, sim.

Prestar atenção em alguém é sinônimo de amor, porque assim é o único jeito de realmente conhecer uma pessoa. Ela nunca dirá que gosta de laços no presente, isso é algo que você descobre com o tempo.

Aliás, eu acredito que os melhores presentes não são os mais caros ou que têm gosto de comida ou formato de flor. Os melhores presentes estão por trás dos presentes. O presente não diz muita coisa em si, talvez ele diga: “eu conheço os seus gostos como ninguém”, “eu sempre vou gastar todo o que eu tenho para satisfazer as suas vontades”, mas o por trás do presente sempre dirá muito mais.

 “Eu penso em você o tempo todo”. É isso que diz o por trás do presente, é isso que tentamos dizer na maior parte do tempo a quem amamos.

Uma mensagem de manhã, uma ligação à tarde, ir até o outro lado da cidade para conseguir uma pedra cor de rosa que falta para a surpresa do dia dos namorados, correr até a parada para chegar mais cedo em casa, decorar o quarto com fotos e papeizinhos coloridos no dia do seu aniversário. Tudo isso só para dizer “Eu te penso”.

Pensamos em quem amamos sempre e nada mais bonito do que isso. A verdade é que não conseguimos desligar-nos desta pessoa. Pensamos nela quando acontece algo bom, quando recebemos uma notícia ruim e até quando ficamos apenas vagando nos próprios pensamentos.

Talvez é para isso que serve o dia dos namorados, para demonstrar que pensamos naquela pessoa. Por isso o importante do presente, não é ele em si, mas o tempo que se gasta pensando nele, pois o amor está no tempo que dedicamos a alguém.

O melhor presente que podemos dar a quem amamos é a nossa presença física, espiritual e emocional. E o melhor presente que podemos receber é saber que estamos no pensamento do outro o tempo todo.

Inclusive quando não estamos.

Um término não é o fim do mundo

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Sabe por que terminar uma relação deixa as pessoas tão inconformadas? Porque elas sentem que conquistaram o mundo quando encontraram alguém e se apaixonaram e criaram rotinas, histórias, sonhos e os concretizaram. Ele comprou uma camisa porque ela gostava, ela viajou para o nordeste porque ele queria. Eles se tornaram donos de um mundo que criaram juntos.

Eu estaria mentindo se eu dissesse que a maioria dos relacionamentos são eternos. Inúmeras vezes alguém encontrou outro alguém e achou que a história seria para sempre, mas acabou no meio do caminho. Aliás, isso acontece o tempo todo.

É isso que eu quero que entendam: terminar um relacionamento é um acontecimento natural da vida. A gente pode fazer todo o possível para que não aconteça, mas na maior parte do tempo é inevitável.

É triste e muito doloroso, com certeza, mas não é o fim do mundo, não é uma tragédia. Perder um filho, prematuramente, é o fim do mundo. Sofrer um acidente e ficar paralítica é o fim do mundo. Perder um pai subitamente é o fim do mundo. E ainda assim, as pessoas continuam, mesmo quando o mundo acaba, elas seguem em frente.

O término de uma relação? Isso não é o fim do mundo, porque elas continuam bem, continuam vivas, apenas não estão juntas, mas há um futuro seguro para elas. O término é só um período que duas pessoas precisam atravessar quando as coisas não vão bem, quando os planos não deram certo, quando as apostas que fizeram estavam erradas, e ali acaba, o enredo.

Porque somos personagens, criando a nossa própria biografia, e ali acaba um capítulo, mas a história da vida continua. Ela não se resume a uma pessoa específica, ela é unicamente sua. É você com seus pais, com seus amigos, com seu cachorro, com seus amores, com seus filhos e com o mundo.

E o que você pode fazer é agradecer por ter acontecido, por ter aprendido, por saber que tem lembranças incríveis, que teve momentos maravilhosos, que experimentou o amor uma vez, porque tem gente que nem isso teve. Então mesmo perdendo, você já ganhou.

E o que você pode fazer é reinventar-se, porque chorar não resolve, porque beber não traz a pessoa de volta, porque ficar com raiva e destilar todo o seu ódio pela internet não recupera o seu orgulho ferido.

Então você precisa perceber que este momento é só a vida te dando uma chance. Uma chance de fazer um novo caminho, de mudar, de fazer algo diferente, de acertar mais com os que ficam, de errar menos com os que virão.

Uma nova chance de ser feliz de verdade, porque ninguém termina uma relação no auge da felicidade, ninguém termina quando duas pessoas se amam acima de tudo, ninguém termina quando as coisas vão perfeitamente bem.

Um término é sempre um novo começo. E você não precisa ter medo do futuro, do amor que se vai, porque o amor sempre volta. Em outras formas, em outros rostos e em outros tempos. O amor não é o problema, o mundo não acaba por isso.

O mundo, na verdade, é o que ficou. E está inteiramente disponível para você conquistá-lo novamente.

Desta vez, do seu jeitinho particular.