Não podemos obrigar ninguém a ficar

ficar

Não podemos obrigar ninguém a ficar, mas se pudéssemos, talvez o faríamos. Chantagens emocionais, promessas ou qualquer tipo de desespero psicológico para que não nos abandonem. Muitos o fazem, por medo do que vem depois. O abandono tem gosto de ressaca.

Se fosse possível, congelaríamos o tempo no momento em que aquela pessoa abriu a porta para sair, como um homem olhando às estrelas pela última vez, igual uma criança escondendo o seu brinquedo favorito na sua festa de aniversário para que ninguém o veja.

E ficaria ali, apenas para enxergá-la, até que a despedida fosse aceita pelo coração, mesmo que este momento nunca chegasse.

Mas não é possível aprisionar um coração. É importante deixar a porta destrancada caso alguém queira sair, o amor precisa ser livre. Não existe nada pior que ficar pelos motivos errados. É triste estar com alguém e não sentir amor quando olhamos dentro dos seus olhos.

Por isso a única coisa que se pode fazer quando gostamos de uma pessoa é abraçá-la. E continuar abraçando, sempre que peça.

E rir das suas piadas para que ela se sinta engraçada.

E prometer ficar na tempestade, para proteger a criança que existe dentro dela, para que nunca sinta medo do universo.

E espantar os seus demônios internos, como um cata-vento que afasta as nuvens, para que ela possa dormir tranquilamente em dias de temporal.

O que se pode fazer é levá-la para ver o pôr-do-sol para que veja um mundo bonito, e escrever uma carta a mão com palavras que rimem, mesmo que você não entenda muito dessas coisas. Apenas para demonstrar que ela importa e quando alguém importa existe esforço.

O que se pode fazer é encontrar as circunstâncias que lhe fazem rir para que sinta a vida mais leve, mesmo que o nome das circunstâncias sejam cócegas ou memes.

E ser o satélite do seu planeta, como um jardineiro cuidando de uma flor, com a admiração de um pintor olhando para o seu próprio quadro. E segurar a sua mão firme nas ruas, para que o mundo entenda que ali é o seu lugar. E dizer: Eu te quero sem reticências e de todas as formas.

O que se pode fazer é querê-la bonito todos os dias e torcer que isto seja suficiente.

Que o amor lhe baste.

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Talvez você nunca amou ninguém

nunca amamos

“Eu amei, mas machuquei a pessoa. Eu amei, mas trai. Eu amei, mas menti. Eu amei.” É o que se gabam em dizer, que amaram. “Eu perdi um amor”, você diz. Pois talvez você nunca amou de verdade, eu digo.

Nos vendem uma ideia de amor tão desprezível, tão mínima, que as vezes acabamos comprando e pagando caro por esse conceito diminuto. E lá estamos sofrendo por alguém que nos maltrata, que não nos trata bem, que não nos presta atenção, que não nos acompanha. Dizemos que amamos alguém que simplesmente não nos ama.

E seguimos, porque acreditamos que seguir é amor, porque a pessoa nos deu um pouco de atenção e isso é amor. Porque nos chama para sair uma vez por semana, porque nos dá um abraço apertado quando nos decepciona, porque nos diz que somos a parte mais importante do seu universo. Seguimos porque somos carentes afetivos e as migalhas que nos dão parecem ser o suficiente. O pouco nos basta.

Nos apaixonamos por quem corresponde ao nosso sorriso, por quem fala as palavras certas na hora certa, por quem responde as nossas mensagens em dois segundos e com emoji de coração. Nos apaixonamos por muito pouco.

Mas que tipo de amor é esse que mente e manipula? Que não respeita e não está nem aí? Que tipo de amor é esse que é egoísta e não lhe deixa seguir os seus sonhos? Que tipo de amor é esse que prende e que lhe diz o que deve ou não deve fazer? Que nos vê como propriedade privada, como se não fossemos nem de nós mesmos.

Que tipo de amor é esse que um dia enjoa e acaba? E depois que acaba vira ódio? Que tipo de amor é esse que tem prazo de validade? Como se a vida já não fosse breve o suficiente para dizer: “preciso de um tempo” ou “precisamos conhecer novas pessoas”.

Talvez nunca nos amaram de verdade. Talvez, nós também nunca amamos ninguém e só queremos acreditar que atingimos o amor. Queremos olhar para os lados e poder dizer “um dia eu amei”, “um dia alguém me amou”, “eu estou amando”, “alguém me ama”, mas talvez seja essa a nossa grande mentira que contamos para o mundo.

Eu não sei o que é o amor, mas eu não acho que amor tenha a ver com sofrimento, nem que seja algo que nos leva para o fundo do poço. Eu acho que amor é como um delicioso chocolate quente no frio penoso do inverno. Eu acredito que o amor é algo que poucas pessoas alcançam, como ver o pôr-do-sol no Everest, algo assim.

É por isso que tantas vezes ouvimos que precisamos nos amar antes de amar outra pessoa, para que possamos ter alguma ideia sobre como devem nos tratar quando somos amados. Para encontrar alguém que se ame também e que saiba pelo menos onde está nos levando. Alguém que também nos ensine sobre o amor, porque a verdade é que sabemos muito pouco sobre isso. E se não sabemos nos amar, um pingo sempre terá gosto de dilúvio.

Talvez eu esteja errado, e o amor seja essas dubiedades todas que ouvimos no dia a dia. Talvez o amor seja mais tristezas que alegrias, mais decepções que orgulhos e mais egoísmos que renúncias.

Ou talvez o amor seja mais do que imaginamos.

O presente do dia dos namorados

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Já comprei o presente, mas não é isso que importa. Embalei com papel azul celeste, porque é a cor favorita dela e coloquei um laço, porque ela tem essa sutileza estética de amar os detalhes.  Colocar o laço não é importante, saber que ela gosta disso, sim.

Prestar atenção em alguém é sinônimo de amor, porque assim é o único jeito de realmente conhecer uma pessoa. Ela nunca dirá que gosta de laços no presente, isso é algo que você descobre com o tempo.

Aliás, eu acredito que os melhores presentes não são os mais caros ou que têm gosto de comida ou formato de flor. Os melhores presentes estão por trás dos presentes. O presente não diz muita coisa em si, talvez ele diga: “eu conheço os seus gostos como ninguém”, “eu sempre vou gastar todo o que eu tenho para satisfazer as suas vontades”, mas o por trás do presente sempre dirá muito mais.

 “Eu penso em você o tempo todo”. É isso que diz o por trás do presente, é isso que tentamos dizer na maior parte do tempo a quem amamos.

Uma mensagem de manhã, uma ligação à tarde, ir até o outro lado da cidade para conseguir uma pedra cor de rosa que falta para a surpresa do dia dos namorados, correr até a parada para chegar mais cedo em casa, decorar o quarto com fotos e papeizinhos coloridos no dia do seu aniversário. Tudo isso só para dizer “Eu te penso”.

Pensamos em quem amamos sempre e nada mais bonito do que isso. A verdade é que não conseguimos desligar-nos desta pessoa. Pensamos nela quando acontece algo bom, quando recebemos uma notícia ruim e até quando ficamos apenas vagando nos próprios pensamentos.

Talvez é para isso que serve o dia dos namorados, para demonstrar que pensamos naquela pessoa. Por isso o importante do presente, não é ele em si, mas o tempo que se gasta pensando nele, pois o amor está no tempo que dedicamos a alguém.

O melhor presente que podemos dar a quem amamos é a nossa presença física, espiritual e emocional. E o melhor presente que podemos receber é saber que estamos no pensamento do outro o tempo todo.

Inclusive quando não estamos.

Um término não é o fim do mundo

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Sabe por que terminar uma relação deixa as pessoas tão inconformadas? Porque elas sentem que conquistaram o mundo quando encontraram alguém e se apaixonaram e criaram rotinas, histórias, sonhos e os concretizaram. Ele comprou uma camisa porque ela gostava, ela viajou para o nordeste porque ele queria. Eles se tornaram donos de um mundo que criaram juntos.

Eu estaria mentindo se eu dissesse que a maioria dos relacionamentos são eternos. Inúmeras vezes alguém encontrou outro alguém e achou que a história seria para sempre, mas acabou no meio do caminho. Aliás, isso acontece o tempo todo.

É isso que eu quero que entendam: terminar um relacionamento é um acontecimento natural da vida. A gente pode fazer todo o possível para que não aconteça, mas na maior parte do tempo é inevitável.

É triste e muito doloroso, com certeza, mas não é o fim do mundo, não é uma tragédia. Perder um filho, prematuramente, é o fim do mundo. Sofrer um acidente e ficar paralítica é o fim do mundo. Perder um pai subitamente é o fim do mundo. E ainda assim, as pessoas continuam, mesmo quando o mundo acaba, elas seguem em frente.

O término de uma relação? Isso não é o fim do mundo, porque elas continuam bem, continuam vivas, apenas não estão juntas, mas há um futuro seguro para elas. O término é só um período que duas pessoas precisam atravessar quando as coisas não vão bem, quando os planos não deram certo, quando as apostas que fizeram estavam erradas, e ali acaba, o enredo.

Porque somos personagens, criando a nossa própria biografia, e ali acaba um capítulo, mas a história da vida continua. Ela não se resume a uma pessoa específica, ela é unicamente sua. É você com seus pais, com seus amigos, com seu cachorro, com seus amores, com seus filhos e com o mundo.

E o que você pode fazer é agradecer por ter acontecido, por ter aprendido, por saber que tem lembranças incríveis, que teve momentos maravilhosos, que experimentou o amor uma vez, porque tem gente que nem isso teve. Então mesmo perdendo, você já ganhou.

E o que você pode fazer é reinventar-se, porque chorar não resolve, porque beber não traz a pessoa de volta, porque ficar com raiva e destilar todo o seu ódio pela internet não recupera o seu orgulho ferido.

Então você precisa perceber que este momento é só a vida te dando uma chance. Uma chance de fazer um novo caminho, de mudar, de fazer algo diferente, de acertar mais com os que ficam, de errar menos com os que virão.

Uma nova chance de ser feliz de verdade, porque ninguém termina uma relação no auge da felicidade, ninguém termina quando duas pessoas se amam acima de tudo, ninguém termina quando as coisas vão perfeitamente bem.

Um término é sempre um novo começo. E você não precisa ter medo do futuro, do amor que se vai, porque o amor sempre volta. Em outras formas, em outros rostos e em outros tempos. O amor não é o problema, o mundo não acaba por isso.

O mundo, na verdade, é o que ficou. E está inteiramente disponível para você conquistá-lo novamente.

Desta vez, do seu jeitinho particular.

O amor não é bonito

mascara

Beleza não é o que eu procuro para nós, o que eu quero para nós é feio. Bonito é o amanhecer em uma ilha caribenha, bonito é a Gal Gadot com a roupa de mulher maravilha ou Rodrigo Hilbert de avental, bonito é ver a lua cheia do topo de uma montanha, isso é bonito.

O que eu procuro para nós é amor, que é o oposto de tudo isso. O que eu procuro é ver o seu rosto quando ele estiver doente e inchado. Conhecer a sua expressão facial quando estiver bufando de raiva, pálida de passar uma noite inteira sem dormir e vermelha de tanto chorar.

O que eu espero é ver você criando rugas e cabelos brancos, acompanhar o seu pequeno e definido corpo virar uma junção de músculos flácidos e enfraquecidos quando a saúde se torne visita rara dentro do seu lar.

O que eu espero não é sobre passar um final de semana em um comercial de viagens, atirados nas bordas de um cruzeiro tomando sol, mas trabalhar três meses inteiros para comprar a nossa primeira câmera semi-profissional e fazer aquela viagem de dois dias a Paraty, de ônibus, almoçando em restaurantes meia-boca e hotel meia estrela.

O que eu espero não é agradável, é brigar com o seu tio por causa de política, ver o seu sobrinho vomitando na roupa da sua irmã e estar ao seu lado quando as pessoas mais importantes da sua vida partirem.

O que eu espero não são palavras bonitas, são palavras que marcam e machucam. Palavras intensas como “sempre”, “muito” e “jamais”, declarações descoordenadas e que não fariam sentido em livro de poema algum. O que eu procuro é que você tenha o poder de me atingir com qualquer palavra que saia da sua boca e esperar que você faça bom uso disso.

O que eu procuro é saber quando você tiver caries, ver as quarenta e sete fotos que você tirou antes de postar uma no Instagram e conhecer o seu cheiro depois que fica dois dias sem tomar banho. Conhecer a sua roupa mais feia, suportar os seus surtos, abraçar os seus medos e fingir que não tenho os meus.

O que eu procuro é saber se você se suja quando come um cachorro quente ou toma um sorvete. Conhecer o seu lado mais ridículo, estúpido e vergonhoso. E passar a vida inteira tentando compreender o incompreensível.

O que eu espero é que você também queira o mesmo. O que eu procuro para nós é a coisa mais feia do mundo.

Bonito mesmo é saber de tudo isso e ainda assim querê-lo de verdade. O amor.

O peso de um “te amo”

pesoteamo

A primeira vez que eu disse para alguém, não foi com convicção, foi um “Eu acho que eu te amo”. Pouco tempo depois percebi a importância deste “acho” e o quanto ele é crucial para o futuro de uma relação. Desde aquele dia, prometi para mim nunca mais dizer isto sem ter certeza do que estava sentindo.

Sabemos o poder que ela tem se cai em ouvidos errados. Sabemos o quanto tornamos refém alguém que gosta de nós se falamos apenas para agradá-lo. Por mais egoísta que pareça, algumas pessoas dizem por pura vaidade de ouvir de volta, estranho assim.

Eu percebo que, cada vez mais, as pessoas utilizam sem responsabilidade um “te amo”, criando ilusões e expectativas a quem leva a sério o peso dela. Há quem diga sem sentir, há quem se contradiga sem dizer. Para mim, declarar-se assim significa dizer ao outro que está disposto, apesar de qualquer obstáculo.

Acho que uma das piores coisas que nos pode acontecer no amor é tornar-nos presos a pessoas com meias verdades, que carregam na garganta um pseudo “te amo”, pronto para ser lançado a qualquer momento e pessoa. Pior que isso, é tornar-nos aquelas pessoas.

Eu me considero egoísta com as minhas palavras, talvez por isso eu perca algumas pessoas. Eu guardo as palavras mais bonitas para quando meus sentimentos se aflorarem com convicção e quando a vontade de amar transborde. Eu guardo os meus “te amo” para alguém que esteja guardando os seus também.

Daqueles que não se desmancham com facilidade, que não se perdem em cada esquina, que não são ditos no calor da hora, nem com segundas intenções a não ser amar. Daqueles que sabemos que não serão ouvidos por qualquer pessoa, que nos fazem sentir especial por ouvi-los e por dizê-los.

São poucos, são raros, mas são sinceros.

Eu ainda acredito em nós

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Peguei a estrada, viajava com o pôr-do-sol no retrovisor e a alma leve, então tocou uma música da nossa banda favorita, aquela animadinha, que você balança a cabeça enquanto canta. É estranho como encontramos as respostas nos momentos mais inesperados… Me deu uma saudade danada do seu sorriso.

Então percebi, não podemos desistir. Não agora, pelo menos. Fiquei refletindo o quanto já fomos felizes e o quanto o carro fica vazio sem a minha parceira musical, mesmo que você adore repetir a mesma canção mil vezes. A liberdade de poder trocar de música a hora que eu quiser não compensa.

Eu não tenho certeza de que desta vez vai dar certo, mas eu tenho certeza que não quero desistir, porque eu acho que ainda há muitas coisas por viver juntos, quem vai ser o nosso silêncio caloroso quando precisemos um do outro?

Há tantas palavras dentro de mim que ainda não te disse e tantos lugares que ainda não te levei para conhecer. Há muita felicidade prometida que eu ainda não consegui cumprir e uma folha riscada cheia de planos para o futuro que escrevemos juntos.

Se o coração ainda sente e continuamos sendo importantes um para o outro, devemos acreditar. Comecemos de novo, sem culpados ou inocentes, porque sabemos que só o perdão faz o amor sobreviver. Pois talvez já tenhamos cometido todos os erros possíveis para errar novamente.

Eu quero que todas as pesquisas que limos na internet e todas as opiniões alheias se explodam, quero que a gente dê certo, se você ainda quiser. Fracassar não é tentar de novo, mas desistir de algo que queremos. Quero encontrar o caminho que nos faz seguir viagem, e que aprendamos finalmente que dialogando podemos ainda ir mais além. Eu segurarei a sua mão firme, enquanto você quiser segurar a minha.

Eu quero acreditar que ainda podemos ser nós dois, que a nossa história ainda não teve um ponto final e que ela não precisa acabar. Eu quero acreditar que nós dois somos diferentes de tantas histórias de amor que ficaram pelo caminho.

Vamos dar uma chance ao destino de ainda estarmos aqui, de ter deixado inconscientemente alguns laços para que não nos afastássemos totalmente, como a custódia do gato, os aniversários dos afilhados e os livros emprestados. Eu confio que a vida sempre nos dá alguns sinais sobre quem deve ficar nas nossas vidas.

Vem que o seu lugar de co-pilota ainda está aqui, vem para te ver novamente cantando aquela música do Paralamas, enquanto vemos o pôr-do-sol aparecendo no lado esquerdo da sua janela, no carro. E deixemos tocar aquela canção…

One more time, ime, ime.